segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ter vida adulta é se deparar em plena segunda coando o seu próprio café, enquanto tempos atrás era sua mãe que fazia isso, e você, deitado na cama, sentia o cheiro de café novo. Isso funcionava como uma certeza de que a sua mãe acordou bem, e ainda estava ali, pra te proteger e cuidar de você. Agora resta você sozinho, em meio à vida adulta. Vida adulta de adulto que ainda não entende que é adulto numa constante síndrome de Peter pan.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Foi assim, que Almodóvar salvou o meu dia.

Não pode ser coincidência, não mesmo.

Hoje recebi uma carta da minha mãe, depois de já ter inscrito umas quatro vezes pra ela e não ter havido resposta. Ontem, liguei pra ela, não que eu tivesse crédito no celular, mas aproveitei o celular da faculdade, quando estava ligando para uma fonte que será importantíssima para uma reportagem que eu desejo fazer.

Hoje recebi a carta, em meio a tantas outras cartas (que nunca são pra mim) e uma revista Psique, possivelmente assinada por Lidiane, minha colega da casa de estudante formada em pedagogia.

Fui à venda ao lado, onde geralmente o carteiro deixa as correspondências (porque o muro da casa não tem caixa de correio). A minha intenção foi comprar um choquito (único chocolate da venda que ainda serve para ser comestível), quando o vendedor pediu que eu aguardasse e me veio com as mãos cheias de envelopes. Coloquei-os sob os braço e comprei com dois reais um chiclete, uma bala e um serenata de amor, além do choquito. Até aí, tudo estava tranquilamente normal.

Cheguei ao meu quarto e deitei na cama. De imediato coloquei os envelopes no chão, afastei o colcha da cama e o shampoo e o condicionador que eu havia colocado lá há umas duas horas atrás, quando havia cogitado a possibilidade de tomar banho e ir para o mini-curso de fotografia que eu tinha lá no museu de arte moderna.

Os flocos do choquito eram super degustados quando dei por mim com a lembrança das correspondências. Levei o braço até o chão e de lá trouxe um amontoado de envelopes o mais próximo que eu pudesse da minha visão. Achei primeiramente uma revista envolta com um plástico azul-quase-transparente e de lá percebi que se tratava de uma revista Psique (daquelas que eu sempre vejo nas bancas só que nunca havia cogitado a idéia de comprá-la).

Olhei para Helder, meu colega de quarto, que estava deitado na sua cama ao lado e indaguei: “- Adivinha o que é? [...] Uma revista psique, vamos abri-la?”

Quando dei por mim a revista já estava fora da embalagem e na mão de Helder, e a matéria da capa dizia “Psicologia da corrupção”. Vibramos juntos com a possibilidade de poder ler aquela reportagem.

No mais, continuei a dar atenção aos envelopes na minha mão e fui passando de um a um. Logo percebi a existência de um envelope de carta - diferentemente dos envelopes de cobrança - eles são listrados nas extremidades por linhas verdes e amarelas. A ansiedade logo tomou conta de mim pelo fato de ter lembrado que minha mãe havia me dito ontem que tinha colocado uma carta no correio pra mim, mesmo achando que cartas eram surpresas, ela resolveu me dizer ao telefone pela falta de novidades.

Neste momento eu parei – mas não parar definitivamente, mas um parar interno, um freio nos pensamentos e uma abertura para reflexão. Pensei sobre a possibilidade de ser a carta que minha mãe havia dito, mas contando com a velocidade do correio achei aquilo improvável e logo me deparei perdido. Preferi não obter esperança – sempre escutei que essa é a melhor forma de não nos frustrarmos.

Continuei a passar os inúmeros envelopes-de-cobrança, quando dei um TREMENDO grito: - “Ahhhhhhhhhhhhhhhh!”

ERA A CARTA QUE MINHA HAVIA ME DITO ONTEM. (neste instante pude perceber o rosto de Helder envolto de um susto, devido aquela tarde de sexta estar mais tranqüila que o normal, será que era devido o clima nublado?)


***


Segurei a carta em mãos, sem ainda poder acreditar.

Não poderia ser verdade, não mesmo!

Mas lá estava: para Alexsandro Oliveira Santos, de Aurora Silva Oliveira.

O filme de Almodóvar, Tudo Sobre Minha Mãe, que estava no DVD, ficou a esperar, enquanto eu me devotava aquele momento tão esperado, aquele momento que eu imaginava que custaria a acontecer.

Abri o envelope com medo de rasgar a carta que tomava quase todo o espaço do envelope, e de lá extraí a carta. Uma folha de caderno, cheia, CHEIA de palavras escritas pela minha Aurora, palavras que a partir daquele momento estariam INSCRITAS no meu pensamento-coração.

Comecei a ler e as palavras eram tão verdadeiras, tão banhadas por um realismo, por um cotidiano que fazia parte de mim há um ano e meio. Vivia cotidianamente com minha mãe, e hoje ela está lá, tão longe, tão distante e sem saber tão pouco do Alex que Ela colocou no mundo.

Aquela carta me salvou. Ela preencheu minha tarde de forma tão intensa que eu ouso a dizer que ela salvou o meu dia.

Fui assistir o filme de Almodóvar com uma sensação de que não era Tudo Sobre a Minha Mãe que eu ia assistir, e sim a minha própria vida – porque é assim que eu costumo ficar quando termino de assistir os seus filmes.

Os seus filmes são de um realismo, de uma antropologia tão apaixonante, que desfaz o endeusamento dos seres humanos e nos retratam de uma forma tão mortal, tão iguais – mesmo convivendo numa sociedade.

Eu, definitivamente, viveria num enredo almodovariano tranquilamente. E nem me importaria em ser um travesti, porque eles nos filmes de almodovar são envoltos de graça, não parecendo ser a pior parte do ser humano, aquela que quase sempre tentamos esconder debaixo de nossas máscaras.

Eles, os travestis, são humanos. Choram, amam, vivem e sonham.

Num é assim que eles deveriam ser vistos, Como mais um ser HUMANO?


***


E dessa forma, a noite caiu por brotas. Aqui, neste quarto de uma casa de estudante – igual ou diferente a qualquer outra casa. Foi assim, que Almodóvar salvou o meu dia.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vejo a minha vida passar, fluir.
É uma pena, eu não mais fruo com as minhas decisões.
Aquela poesia e aquela prosa se foram.
Hoje é o dia-a-dia a me consumir.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Janelas

As janelas, parte da arquitetura de casas e prédios, são uma abertura para o mundo, tanto para o exterior, como para o interior. As janelas que fotografei no campo grande, 2 de julho, Carlos Gomes, Pelourinho e Santo Antônio Além do Carmo, num dia de domingo, tiveram inúmeros significados. Por vezes pude encontrar uma senhora debruçada na janela a desfrutar da calmaria de sua rua, uma mulher na janela do prédio curiosa com a movimentação e a música que vinha da praça, onde uma banda de senhores idosos tocavam músicas de Novos Baianos e Dorival Caymmi. Pude perceber janelas de inúmeras cores, janelas refletidas em poças d’água ou refletidas nas janelas dos carros estacionados, janelas com roupas penduradas para secar na grade, janelas com roupas íntimas femininas.
Em todas, sempre existe o fator humano presente. E é esse fator que faz de uma simples abertura quadrada ou retangular em uma parede, ter essa multiplicidade de significados.
Janela é oportunidade. Janela é olhar pra fora e pra dentro. Janela é acordar. Janela é enxergar o que acontece ao seu redor. Janela é percebe-se – também - vivo, em meios a tanta vida lá fora. Janela de tanta forma, cor e utilidade. Janela é o ser humano. A janela forma conceitos prévios de vidas que não podem passar mais do que apenas aqueles momentos, em que se fazem presentes por aquele espaço. Janelas é o olhar. Janela fotografa instantes, que sem poder revelar-se em papéis fotográficos, ficam somente na memória, tanto daqueles que observa, como daquele que é observado.

domingo, 9 de agosto de 2009

com o tempo venho aprendendo a ser mais egoista, e isso não enxergo como algo ruim. hoje me vejo como importante, como se no fim eu estivesse dividido em dois, e sempre me preocupo - e hoje em dia cada vez mais - com o meu eu constante, aquele que está comigo sempre, aquele que está em formação, aquele que forma o alex. com isso consigo enxergar tão nítido o significado da palavra equilíbrio.
hoje, dormindo fora de casa, percebi o quanto sou tão chato. o quanto tenho tantos resquícios da minha educação, da minha formação tão caseira, na qual minha mãe sempre queria que eu ficasse em casa e acreditava que dessa forma estaria protegendo-me do mundo. engano dela! isso me deu sede e fome, e o resultado é esse: eu morando fora de casa aos 21 anos. e isso tudo não foi mero acaso, mas consequência das minhas atitudes e desejos. esta criação que eu tive me deixa com a sensação de culpa, de 'estou-fazendo-coisas-erradas-e-não-estou-produzindo', como se não fosse nunca merecível momentos e dias inteiros de lazer e diversão. sou escravo do pensamento e dos julgamentos. mas não julgamentos alheios e relacionados com os outros, mas um julgamento direcionado diretamente ao meu ser, e daí vejo o meu outro eu, em forma concreta e agressiva.
ufa, que alívio! ultimamente estava tão seco de mim, tão sem palavras. pensei que nunca mais poderia ver palavras brotando os meus pensamentos, e organizando eles de forma tão una, que sou capaz de enxergar-me num espelho, ao ler o que escrevo momentos depois da escrita.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Voltando de ônibus pra casa hoje, a chuva desceu do céu, aquelas chuvas que chegam devagar e logo deixam todo o asfalto molhado. percebo, de dentro do ônibus, pessoas correndo, agitadas, procurando abrigo, em meio aos pequenos espaços que encontram pela rua para protegerem-se.
Em toda aquela cena, me vi como aquelas pessoas. Percebi como ando correndo, tentando encontrar lugar para me esconder da vida. Perdi o gosto de me jogar de abismos. Ando morno, nunca frio, nem quente. Ando morto.
Dentro do ônibus, protegido da chuva, e sendo levado, somente, sem precisar me mover, enxerguei outro alex, no mesmo. ilusão minha, acreditar que éramos diferentes. Numa situação eu corro, mas deixo de desfrutar a sensação da chuva. Noutra, estou protegido e cômodo, e deixo me levar, sem precisar nem pensar qual será o destino. Em todas, estou morto.
Tenho que reencontrar o que me fazia vivo sempre. Porque nunca fui de morte. o alex de antes não era assim, e hoje já não sei mais quem sou. mesmo!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

pra você que quer saber quem eu sou: eu sou aquele menino do interior que ia todos os fins de tarde comprar o pão quentinho na padaria e que saía recolhendo folhas das árvores e distribuindo-as - de casa até a padaria, da padaria até em casa - e acreditando que os bons pensamentos e palavras que eu dedicava a cada uma das folhas que eram soltas poderiam ser transmitidos as pessoas que passassem por cima delas, simplesmente. esse sou eu, que venho tentando manter vivo - até hoje.