segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ter vida adulta é se deparar em plena segunda coando o seu próprio café, enquanto tempos atrás era sua mãe que fazia isso, e você, deitado na cama, sentia o cheiro de café novo. Isso funcionava como uma certeza de que a sua mãe acordou bem, e ainda estava ali, pra te proteger e cuidar de você. Agora resta você sozinho, em meio à vida adulta. Vida adulta de adulto que ainda não entende que é adulto numa constante síndrome de Peter pan.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Foi assim, que Almodóvar salvou o meu dia.

Não pode ser coincidência, não mesmo.

Hoje recebi uma carta da minha mãe, depois de já ter inscrito umas quatro vezes pra ela e não ter havido resposta. Ontem, liguei pra ela, não que eu tivesse crédito no celular, mas aproveitei o celular da faculdade, quando estava ligando para uma fonte que será importantíssima para uma reportagem que eu desejo fazer.

Hoje recebi a carta, em meio a tantas outras cartas (que nunca são pra mim) e uma revista Psique, possivelmente assinada por Lidiane, minha colega da casa de estudante formada em pedagogia.

Fui à venda ao lado, onde geralmente o carteiro deixa as correspondências (porque o muro da casa não tem caixa de correio). A minha intenção foi comprar um choquito (único chocolate da venda que ainda serve para ser comestível), quando o vendedor pediu que eu aguardasse e me veio com as mãos cheias de envelopes. Coloquei-os sob os braço e comprei com dois reais um chiclete, uma bala e um serenata de amor, além do choquito. Até aí, tudo estava tranquilamente normal.

Cheguei ao meu quarto e deitei na cama. De imediato coloquei os envelopes no chão, afastei o colcha da cama e o shampoo e o condicionador que eu havia colocado lá há umas duas horas atrás, quando havia cogitado a possibilidade de tomar banho e ir para o mini-curso de fotografia que eu tinha lá no museu de arte moderna.

Os flocos do choquito eram super degustados quando dei por mim com a lembrança das correspondências. Levei o braço até o chão e de lá trouxe um amontoado de envelopes o mais próximo que eu pudesse da minha visão. Achei primeiramente uma revista envolta com um plástico azul-quase-transparente e de lá percebi que se tratava de uma revista Psique (daquelas que eu sempre vejo nas bancas só que nunca havia cogitado a idéia de comprá-la).

Olhei para Helder, meu colega de quarto, que estava deitado na sua cama ao lado e indaguei: “- Adivinha o que é? [...] Uma revista psique, vamos abri-la?”

Quando dei por mim a revista já estava fora da embalagem e na mão de Helder, e a matéria da capa dizia “Psicologia da corrupção”. Vibramos juntos com a possibilidade de poder ler aquela reportagem.

No mais, continuei a dar atenção aos envelopes na minha mão e fui passando de um a um. Logo percebi a existência de um envelope de carta - diferentemente dos envelopes de cobrança - eles são listrados nas extremidades por linhas verdes e amarelas. A ansiedade logo tomou conta de mim pelo fato de ter lembrado que minha mãe havia me dito ontem que tinha colocado uma carta no correio pra mim, mesmo achando que cartas eram surpresas, ela resolveu me dizer ao telefone pela falta de novidades.

Neste momento eu parei – mas não parar definitivamente, mas um parar interno, um freio nos pensamentos e uma abertura para reflexão. Pensei sobre a possibilidade de ser a carta que minha mãe havia dito, mas contando com a velocidade do correio achei aquilo improvável e logo me deparei perdido. Preferi não obter esperança – sempre escutei que essa é a melhor forma de não nos frustrarmos.

Continuei a passar os inúmeros envelopes-de-cobrança, quando dei um TREMENDO grito: - “Ahhhhhhhhhhhhhhhh!”

ERA A CARTA QUE MINHA HAVIA ME DITO ONTEM. (neste instante pude perceber o rosto de Helder envolto de um susto, devido aquela tarde de sexta estar mais tranqüila que o normal, será que era devido o clima nublado?)


***


Segurei a carta em mãos, sem ainda poder acreditar.

Não poderia ser verdade, não mesmo!

Mas lá estava: para Alexsandro Oliveira Santos, de Aurora Silva Oliveira.

O filme de Almodóvar, Tudo Sobre Minha Mãe, que estava no DVD, ficou a esperar, enquanto eu me devotava aquele momento tão esperado, aquele momento que eu imaginava que custaria a acontecer.

Abri o envelope com medo de rasgar a carta que tomava quase todo o espaço do envelope, e de lá extraí a carta. Uma folha de caderno, cheia, CHEIA de palavras escritas pela minha Aurora, palavras que a partir daquele momento estariam INSCRITAS no meu pensamento-coração.

Comecei a ler e as palavras eram tão verdadeiras, tão banhadas por um realismo, por um cotidiano que fazia parte de mim há um ano e meio. Vivia cotidianamente com minha mãe, e hoje ela está lá, tão longe, tão distante e sem saber tão pouco do Alex que Ela colocou no mundo.

Aquela carta me salvou. Ela preencheu minha tarde de forma tão intensa que eu ouso a dizer que ela salvou o meu dia.

Fui assistir o filme de Almodóvar com uma sensação de que não era Tudo Sobre a Minha Mãe que eu ia assistir, e sim a minha própria vida – porque é assim que eu costumo ficar quando termino de assistir os seus filmes.

Os seus filmes são de um realismo, de uma antropologia tão apaixonante, que desfaz o endeusamento dos seres humanos e nos retratam de uma forma tão mortal, tão iguais – mesmo convivendo numa sociedade.

Eu, definitivamente, viveria num enredo almodovariano tranquilamente. E nem me importaria em ser um travesti, porque eles nos filmes de almodovar são envoltos de graça, não parecendo ser a pior parte do ser humano, aquela que quase sempre tentamos esconder debaixo de nossas máscaras.

Eles, os travestis, são humanos. Choram, amam, vivem e sonham.

Num é assim que eles deveriam ser vistos, Como mais um ser HUMANO?


***


E dessa forma, a noite caiu por brotas. Aqui, neste quarto de uma casa de estudante – igual ou diferente a qualquer outra casa. Foi assim, que Almodóvar salvou o meu dia.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vejo a minha vida passar, fluir.
É uma pena, eu não mais fruo com as minhas decisões.
Aquela poesia e aquela prosa se foram.
Hoje é o dia-a-dia a me consumir.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Janelas

As janelas, parte da arquitetura de casas e prédios, são uma abertura para o mundo, tanto para o exterior, como para o interior. As janelas que fotografei no campo grande, 2 de julho, Carlos Gomes, Pelourinho e Santo Antônio Além do Carmo, num dia de domingo, tiveram inúmeros significados. Por vezes pude encontrar uma senhora debruçada na janela a desfrutar da calmaria de sua rua, uma mulher na janela do prédio curiosa com a movimentação e a música que vinha da praça, onde uma banda de senhores idosos tocavam músicas de Novos Baianos e Dorival Caymmi. Pude perceber janelas de inúmeras cores, janelas refletidas em poças d’água ou refletidas nas janelas dos carros estacionados, janelas com roupas penduradas para secar na grade, janelas com roupas íntimas femininas.
Em todas, sempre existe o fator humano presente. E é esse fator que faz de uma simples abertura quadrada ou retangular em uma parede, ter essa multiplicidade de significados.
Janela é oportunidade. Janela é olhar pra fora e pra dentro. Janela é acordar. Janela é enxergar o que acontece ao seu redor. Janela é percebe-se – também - vivo, em meios a tanta vida lá fora. Janela de tanta forma, cor e utilidade. Janela é o ser humano. A janela forma conceitos prévios de vidas que não podem passar mais do que apenas aqueles momentos, em que se fazem presentes por aquele espaço. Janelas é o olhar. Janela fotografa instantes, que sem poder revelar-se em papéis fotográficos, ficam somente na memória, tanto daqueles que observa, como daquele que é observado.

domingo, 9 de agosto de 2009

com o tempo venho aprendendo a ser mais egoista, e isso não enxergo como algo ruim. hoje me vejo como importante, como se no fim eu estivesse dividido em dois, e sempre me preocupo - e hoje em dia cada vez mais - com o meu eu constante, aquele que está comigo sempre, aquele que está em formação, aquele que forma o alex. com isso consigo enxergar tão nítido o significado da palavra equilíbrio.
hoje, dormindo fora de casa, percebi o quanto sou tão chato. o quanto tenho tantos resquícios da minha educação, da minha formação tão caseira, na qual minha mãe sempre queria que eu ficasse em casa e acreditava que dessa forma estaria protegendo-me do mundo. engano dela! isso me deu sede e fome, e o resultado é esse: eu morando fora de casa aos 21 anos. e isso tudo não foi mero acaso, mas consequência das minhas atitudes e desejos. esta criação que eu tive me deixa com a sensação de culpa, de 'estou-fazendo-coisas-erradas-e-não-estou-produzindo', como se não fosse nunca merecível momentos e dias inteiros de lazer e diversão. sou escravo do pensamento e dos julgamentos. mas não julgamentos alheios e relacionados com os outros, mas um julgamento direcionado diretamente ao meu ser, e daí vejo o meu outro eu, em forma concreta e agressiva.
ufa, que alívio! ultimamente estava tão seco de mim, tão sem palavras. pensei que nunca mais poderia ver palavras brotando os meus pensamentos, e organizando eles de forma tão una, que sou capaz de enxergar-me num espelho, ao ler o que escrevo momentos depois da escrita.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Voltando de ônibus pra casa hoje, a chuva desceu do céu, aquelas chuvas que chegam devagar e logo deixam todo o asfalto molhado. percebo, de dentro do ônibus, pessoas correndo, agitadas, procurando abrigo, em meio aos pequenos espaços que encontram pela rua para protegerem-se.
Em toda aquela cena, me vi como aquelas pessoas. Percebi como ando correndo, tentando encontrar lugar para me esconder da vida. Perdi o gosto de me jogar de abismos. Ando morno, nunca frio, nem quente. Ando morto.
Dentro do ônibus, protegido da chuva, e sendo levado, somente, sem precisar me mover, enxerguei outro alex, no mesmo. ilusão minha, acreditar que éramos diferentes. Numa situação eu corro, mas deixo de desfrutar a sensação da chuva. Noutra, estou protegido e cômodo, e deixo me levar, sem precisar nem pensar qual será o destino. Em todas, estou morto.
Tenho que reencontrar o que me fazia vivo sempre. Porque nunca fui de morte. o alex de antes não era assim, e hoje já não sei mais quem sou. mesmo!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

pra você que quer saber quem eu sou: eu sou aquele menino do interior que ia todos os fins de tarde comprar o pão quentinho na padaria e que saía recolhendo folhas das árvores e distribuindo-as - de casa até a padaria, da padaria até em casa - e acreditando que os bons pensamentos e palavras que eu dedicava a cada uma das folhas que eram soltas poderiam ser transmitidos as pessoas que passassem por cima delas, simplesmente. esse sou eu, que venho tentando manter vivo - até hoje.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

algo que seja construtivo
porque construção é dizer
que as coisas são feitas
de você.
na mancha branca
que povoa a noite
a disciplina pode ser muitas
das vezes liberdade,
noutras, prisão.
de grades tênues como fios
de linha 10.
daqui a pouco eu volto,
montado no grilo de saltos infinitos,
que saltam de cabeça para o tempo.
é tempo de atemporar!
o deserto há de brotar
essa tão desejosa liberdade.
o m(eu) animal comeu.



Alex Oliveira e Helder Matos.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

um dia eu morri.
e morrer é afundar.
não na definição exata desta afirmação.
afundar afundar afundar...
hoje: eu vôo afundando!
afunvoando.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

semântica,

semiótica,

hermenêutica,

fenomenologia,

blá, blá, blá...

fenomenolótica,

hermenântica,

seminêutica,

semânologia,

desconstrução dos signos.

extrapor!

tudoéumafarsa.

Quando a idéia principal é SENTIR.

terça-feira, 2 de junho de 2009

foi ela,
ela mesmo.
Ela veio dessa forma:
devaneia,
sem gentilezas,
nua,
com a pureza da alma.
Ela é transgressora,
e fiel com as idéias.
É tão cômico percebe-me assim:
pasmo!
Hoje em dia ela é meu presente,
me enche,
PREENCHE,
trans-bor-da,
mantendo-me no nível certo para fazer com que eu seja
equilibrado.
E na minha forma de ver:
anômalo aos seres fiéis as normas implantadas.
Hoje a poesia me chama pelo nome.

domingo, 31 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

As despedidas

Numa segunda-feira, em plena rua movimentada, um homem de camisa vermelha que estava indo para o trabalho, na sua rotina diária, sentiu o seu pensamento tão alto e perturbador, que naquele minuto ele descobriu uma solução para os sofrimentos da existência humana. Ele enxergou e degustou num repentino piscar de olhos, um mundo em que não existisse despedidas. Um mundo no qual na houvesse adeus e tchau’s. Um mundo sem o término daquelas músicas de fim de filme, em que a paz e a tranqüilidade alojam momentaneamente no interior do ser. Um espaço sem que existisse a saudade e que a felicidade não fosse só um momento, mas uma sucessão de acontecimentos. Ele transfigurou-se diretamente para esse novo mundo, totalmente virgem e abstrato. Nesta sua viagem, ele, de camisa vermelha, estava num ambiente totalmente preto e branco. O contraste em que a cor vermelha fazia, ao ser exposta as cores pretas e brancas, fez nitidamente, com que as reticências não mais fossem presentes. O doce sabor da descoberta mostrou o porquê daquelas metáforas. Naquele mundo, por ele idealizado, não haveria vida, somente um ensaio de algo que nunca seria estrelado. Ele percebeu que a existência é feita deste eterno jogo, em que não há ganhadores e nem perdedores.

E nesse enlace, ele foi desperto, por uma pessoa em busca de informação, que estava a passar pela rua. Em sua pele, ele sentiu um vento com o sabor da existência, e continuou o seu trajeto como se num leve descuido pudesse voar. Partida e separação, palavras que definem despedidas, fizeram-se agora moradoras daquele homem de camisa, multicor.

domingo, 24 de maio de 2009

muitas das vezes eu tenho a ligeira impressão que estou doente, de poesia.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A casa de estudante, isso realmente merece vários textos. O telhado está um caos – quase como a minha vida – e a laje já não suporta a quantidade de água. Todos os cômodos da casa andam cheios de goteiras e água jorrando pelas lâmpadas. Os ônibus da cidade andam numa quase-greve, a polícia civil já entrou, e o detran numa assembléia feita hoje, ameaçou pararem as atividades.
Eu: ando lendo! Encontrando-me em livros que fogem de coisas que realmente tenho que ler para a faculdade, faltando um pouco a aula e o trabalho, e fotografando mais.
Enquanto o mundo me pede organização e disciplina, eu tento - dentro das minhas estruturas, ou faltas delas - seguir, constantemente, meus sonhos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Numa quarta-feira, a minha vida mudou. Meu relógio não despertou, os meus sonhos permaneceram, e do chão do meu quarto, vi as nuvens pela janela. Almocei café da manhã, e andei na minha casa vazia, num sabor liberdade - que até então - tinha tornado-se raro.

Ultimamente tenho me sentido a encarnação de Atlas, um gigante condenado por Zeus, a carregar o mundo nas costas. Por isso, é tão saboroso reescrever o meu dia, quando involuntariamente, ele já vem pré-criado e embalado. É como comer doce antes do almoço, enquanto pessoas estabelecem a ordem contrária. É como andar na chuva, enquanto pessoas se escondem debaixo de lugares cobertos. É doce, a sensação!

A minha vida mudou, e os meus olhos já não são os mesmos. Sou vário! Nesta transição, a linha existente é mínima, e capaz de fazer-me transcender.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Naquele dia eu fiquei deslumbrado com a liberdade dos pássaros. Ah, eles iam e viam de uma forma tão leve, tão suave, tão diferente do ser humano preso no chão, preso as suas convicções e idealizações de coisas futuras, tão paradoxais. A natureza daquele lugar era tão mágica que não parecia que eu estava num lugar de fato, ou que eu existia, parecia que eu era um personagem, num daqueles livros imagéticos de mundos grandiosamente magníficos. Naquele instante, eu com a minha nikon fm10, a querer fotografar aquela imensa árvore seca, com galhos imensos, tão contrastantes com aquele universo de árvores cheias de folhas verdes. Em meio aquela inundação de sentidos, percebi um pássaro lindíssimo, quieto, num galho da mesma árvore seca. Eu, de baixo, apontando a minha nikon fm10, a calcular cada movimento, a perceber a velocidade e o diafragma, focando bem aquele ser na sua quietude, foi naquele instante, no momento em que puxei uma haste da câmera para fotografá-lo, que senti como se estivesse com uma arma, senti como se estivesse puxando o gatilho, preparando a bala, aproveitando a quietude daquele ser. Quem era eu para matá-lo, para aprisioná-lo naquele espaço-tempo? Eu não podia ter aquele poder de decisão...
Percebi o poder da fotografia, o poder de prender os seres - estáticos - em uma imagem. Aquele pássaro irá continuar na sua liberdade de ir e vir, eu continuarei aqui - com sua imagem presa - num filme. Levar aquele pássaro comigo numa fotografia é como trazer um pouco daquela representação de liberdade, presa na minha memória concreta. O conceito liberdade e prisão pairam, com isso, numa relatividade, que ao mesmo tempo consigo enxergar-me pássaro, dentro da minha vida-fotografia.

domingo, 10 de maio de 2009

Juliena é uma menina de sentimentos, até aí, natural. Mas não são sentimentos normais, tipo o que encontramos a qualquer esquina, são aqueles sentimentos de livros, de poesias, e até aqueles de filmes, que passam uma sutileza transbordada de vivacidade e realismo. Juliena trabalha numa loja de livros, e por vezes, sonha em ser um deles. Senti avidamente a mão de pessoas tocando-a, folheando cada página, e desta forma, sendo sempre presente como algo significativo e emocionante, algo aguardado durante todo dia, para aquele momento íntimo, de leitura. Ela define a vida como bicicletas, coisa que ela nunca conseguiu andar. E por isso, acredita que estará livre do ditado que diz: ‘... é como andar de bicicleta pela primeira vez, nunca se esquece.’ Ela gosta de sensações diárias, como sorrir, desfrutar cada pedaço do vento, fazer brigadeiro nos dias de domingo, e comer assim mesmo, na panela, depois de um certo tempo na geladeira, em frente a TV, assistindo aqueles filmes que ela alugou na quarta, dia de promoção, e terá que devolvê-lo até a meia noite de domingo. Juliena é um ser simples, e não entende o motivo dos seus colegas de trabalho a chamarem de anômala. É verdade que ela usa sempre uma meia amarela, com as suas sandálias de couro, mas isso não é motivo. As suas meias amarelas foram presente de sua avó, e usá-las é como trazer à tona um passado suave e feliz que ela viveu quando criança, no período de ausência de seus pais. Juliena nunca termina de ler os livros que ela traz da livraria, aqueles que são permitidos o empréstimo aos funcionários. Ela tem medo de terminar aqueles mundos, e com isso sofre de uma doença até então rara: ser personagem de histórias paralelas.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

a vida seguelenta,

na estradado infinito.

e aspessoas,

agitadas.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

tudo.
TUDO em que há...
a cada sentido do existir,
ex-tra-por!
os sentidos sentem essa necessidade.
tudo ao doce sabor das nuvens.






Tudo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

não...
não mesmo,
a cidade anda gritando: não mesmo!
a vida segue lenta,
no ritmo natural.
e o sonho? não mesmo!
ali, na parede pintada de cal,
está a esperança multicolorida,
a espera do ser-vida,
a espera,
a espera,
a
espera
espera há?

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A praça, ocupada pelo enxame de pessoas, dividia espaços com os pombos, que estrategicamente vinham comer os milhos que os idosos traziam em pequenos pacotes acomodados em sacolas de propaganda. Naquele dia, algo perturbador, mudou a vida de um dos integrantes daquele espaço. A sensação do fim da vida foi reveladora, sendo anunciada como uma falta de energia elétrica em meio urbano, surpreendente e fugaz.
E no estralar de dedos, a respiração se foi repentinamente. Os pombos famintos, em contraste com a situação, devoravam os grãos doados. As pessoas, ligeiras e pouco sensíveis, continuavam na sua correria rotineira. E a praça seguia inerte, demonstrando a insuficiência perante a realista lei da vida.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O homem sem guarda-chuva.

Numa certa manhã, daquelas que o céu chora lágrimas torrenciais, e que sua cor azul se transforma num branco cinzento, o homem sem guarda-chuva saboreia a doce sensação da chuva em seu corpo. Uma sensação única, uma fuga dos parâmetros, uma liberdade inundada de sentidos.

Pessoas o olhavam, não entendendo o que aquele ser sentia. Em seus pensamentos eles pré-julgavam. Debaixo dos seus guarda-chuvas eles se achavam protegidos e imaginavam ser normais na sua rotina. Eles eram fiéis as suas leis e normas, e acreditavam serem livres.

Mas o homem sem guarda-chuva estava encantado com cada gota d’água que se misturava ao seu corpo. Ele provava o gosto da simplicidade. Ele transgredia. Ele apenas almejou fazer-se vivo, dentre a tantos mortos.

domingo, 26 de abril de 2009

foi ela,
ela mesmo.
Ela veio dessa forma:
devaneia,
sem gentilezas,
nua,
com a pureza de alma.
Ela é transgressora,
fiel com as idéias.
É tão cômico percebe-me assim:
pasmo!
Hoje em dia ela é meu presente,
me enche,
PREENCHE
e trans-bor-da
e me mantém no nível certo para fazer com que eu seja
eQuIlibRaDo,
e na minha forma de ver:
anômalo aos seres fiéis as normas implantadas.
Hoje a poesia me chama pelo nome: dois pontos ( . . )

quarta-feira, 15 de abril de 2009

só pra constar: ando com saudade da literatura transbordando entre os meus poros.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

tudo flui naturalmente, mas pra mim, NEM TUDO é motivo de fruição.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Nessa trajetória cotidiana do ônibus, o mundo corre na minha referente visão retilínea,

e os meus olhos são como lentes de uma máquina fotográfica,

retratando os meninos no trânsito, malabarizando entre as justiceiras faixas de pedestre.

Os mendigos a perambular sobre a selva de pedras, As casas sem reboco e os exuberantes prédios transfigurando os altos parâmetros modernos de uma não-modernidade.

Deixando como foco o paradoxo contraste da construção secular.

O tempo indica que o fuso horário desregula o regulável percurso,

E o tic tac se transforma numa sirene ensurdecedora, revelando os momentos históricos

de uma sociedade racional, que escraviza seus seres na sua nova forma de liberar.

A planta rasga o concreto gritando vida, e dela sai palavras sobre a norma culta de uma língua aquecida e esquecida, educando (aprisionando) a incontrolável vontade de pensar.

E Drummond em uma estrofe da sua poesia O escritor já dizia:

"Livre e ligado a seu próximo

Na larga avenida humana

Em que beleza e justiça

Fazem de espera, esperança."

O espetáculo hoje é sofrimento,

perdemos a noção dos fatos, e o que era novo, agora é cotidiano banalizado.

Mestiços sem aceitar sua mestiçagem, democracia sem democratizar.

Direita esquerdizando, e esquerda direitizando.

A festa acontece, e onde está a alegria?

Vejo-me no espelho e acho graça.

Como não pude perceber que meu nariz está vermelho e minha cara pintada?

O meu trabalho é a segunda-feira a bater o cartão e ser dependente do seu limite.

A revolução saiu pela culatra, o meu grito não é mais de independência.

Construíram a minha prisão e a constituição não mais constitui.

E da minha boca a canção se faz presente, "vendo aquelas pedras que choram sozinhas, no mesmo lugar".

E nessa viagem um vendedor ambulante adentra, oferecendo seu mercado informal para alguns consumidores invisíveis gerados de um determinismo insensível.

Onde está a razão?

Os pássaros não mais cantam e a borboleta não mais encanta,

As pipas estão presas no fio, e os ninhos guerreiam espaços entre as árvores do século XXI.

O certo e o errado definem-se nas leis de Sócrates.

A seca atual é interna,

A utopia pia,

E percebo que meu ponto chegou,

Espremo-me entre os cidadãos para conseguir sair,

E me despeço com um leve sorriso,

Enxergando-me sujeito daquele predicado.


sábado, 4 de abril de 2009

Sensações, epistemologia total. Realmente o meu cotidiano tem sido assim: cheio! Transbordo dentro de mim mil vezes por dia. A mudança é f-o-d-a! Quem que criou isso? O gosto de liberdade em momentos é como fel, é prisão! Na boa, está só na multidão é radiante, mas esse radiante é tão extremo, que tendo a me perder, a perguntar-me quem sou o que realmente quero, qual é o motivo de acordar cedo? Deixar as horas escorrer pelos dedos é uma delícia, quando não se tem dentro de si um ditador, quando não se tem sonhos, quando a disciplina é algo que funciona. Certo dia resolvi poetizar a minha vida, ou transformá-la em prosa, narrando-me como personagem-ser, e hoje em dia, não sei se de fato sou existência ou personagem. Pairo como ator em cena, sempre acreditando nos meus papéis, fazendo da realidade, uma arte de viver. Sou levado pelo poder das palavras, pelo poder da linguagem, tentando dessa forma, existir. É difícil existir, realmente difícil existir nesse mundo de coisas omissas. É como achar-se andando em círculos, quando se acredita que estava em linha reta.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Hoje o dia amanheceu nublado, e dias nublados são como cidades grandes, trazem consigo um ar de impessoalidade, um clima de refúgio, uma paz independente. Acordei e a minha sensação foi de quê tudo valeria a pena naquele dia, tudo! Mesmo que no final eu não tivesse feito nada, esse nada seria um ócio por demais saboroso. Dias desses são raros. É como acordar-se completo, irradiante! Tive revivida a lembrança de quando criança, correndo no quintal, em meio a lençóis lavados no varal. Ah, aqueles dias eram de uma paz que transcendia. Realmente, transcendia. Sempre quis denominar aquela minha sensação, mas naquele momento da minha vida, aquilo era inominável. Era como um ritual, que eu acompanhava cada fase, desde o momento da lavagem dos lençóis, onde minha mãe e minhas tias colocavam ‘os papos em dias’, e eu ficava ali, parado, embriagado por aquele mar de palavras e sensações. Ficava ali, sentado, noutras vezes ia assistir TV, tudo na expectativa do momento em que aqueles lençóis seriam colocados no varal, e que o vento juntamente com o sol, faria todo o restante. E no fim da tarde, quando o sol ia embora e deixava aqueles lençóis dançando a música orquestrada pelo vento, esse era o meu momento, o meu grande momento! Ia com todo aquele cuidado, para evitar que os sujasse, e em meio aquela dança eu me esgueirava, entrava por entre os lençóis ao ponto de pensar, na minha viagem infantil, que estava num túnel, num campo de força, indo diretamente para outro mundo, um mundo submergido pela minha criatividade.