segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Teremos sempre paredes brancas para colocar novos cartões postais.




estaremos

preparados

para

essas

paredes?



Prefiro saber de onde virão novos cartões postais.

O relógio de compromissos guardados, ressoam exalando tempos vindouros de uma Paulicéia desvairada ou de uma Pasárgada desconhecida, com suas estradas de tijolos amarelos de Dorote... ou nos jardins floridos de Alice a passear com a lucidez de Shihiro e com desejo avoador do joão do pé de feijão. Porque em dias de chuva e sol, dias de casamentos de raposa e de major, a beleza é dada no espelho que desconstroi o que sempre vem a ser denominado pelo deus do ego.

Nós, sementes. Vida de peixe a nadar em laje de sol, de alimento de pássaro que, com pés firmes permitem-se voar numa cidade ainda desconhecida pelos sonhos. Que com pés firmes e asas abertas permitem-se semente também ser, sabendo que em paredes brancas também existem cartões postais brancos de uma coisa ainda por fazer.







Alana, Alex.

domingo, 19 de setembro de 2010

Sonhar com pássaros. Ter lembranças como tapete de uma realidade. Perceber-se num mundo onde ruas são ladeiras, e, no final delas, abismos. Sim, ando sonhando com abismos. Assim mesmo, com todos os gerúndios possíveis.
Acordei às 6h de domingo de um sono maravilhoso e de duas semanas intensas de trabalho e mudanças. Constatei que tudo era novo.
Ontem a tarde passei a máquina em metade do meu cabelo e minha imagem no espelho já não era a mesma, minhas companhias caseiras agora eram outras e existiam outros livros – que não os meus - espalhados pela sala com a promessa de serem lidos.
Gozo da percepção única e simples da evolução. Da condição de sonhador a fruto do sonho. De não ser mais aquela pessoa que mora na principal avenida da cidade, aquela que liga a sua cidade a outras. E ficar ali, inerte, olhando as pessoas que se vão dentro dos ônibus que passam e deixam pra trás a possibilidade de uma ida.
Hoje habito aquelas pequenas janelas de rostos transitórios. Fotografia em movimento. Carrego, atualmente, a inversão de papéis. Da mãe sendo filho e do filho sendo responsável pelas contas a pagar.

sábado, 4 de setembro de 2010

O futuro dura muito tempo

As rádios de Jequié sempre participaram da minha vida enquanto  um cidadão jequiense. Hoje percebo isso ainda mais nitidamente. 
As canções que tocavam - umas que sei até hoje cantarolar, outras que reconheço pela melodia - todas elas registram lembranças. 
Consigo me transportar totalmente para o passado, para os momentos e sentimentos que eu vivia quando aquela música tocava no rádio como plano de fundo de alguma coisa situação corriqueira. Aquelas canções hoje são fantasmas que de vez em quando aparecem para me atormentar. 
Percebo que pessoas sensíveis carregam consigo uma mala sempre arrumada - ou não - para seguir viagem. Entretanto, nunca lhe são dadas tempo favorável para desfrutar das paisagens que compõem o cenário. Tudo é visto de fora, sempre em velocidade, sendo passado constantemente como uma película de filme projetada na janela. É, assim, que a vida e os acontecimentos passam e deixam claro a sua inércia perante eles.
Os horizontes, pássaros, nuvens e pessoas... tudo aquilo é algo desconhecido e fugaz. 
O cinema tem sempre em cartaz pessoas e cenas mudas e sem legendas. Talvez seja isso que eu sinto quando deixo de ler dentro dos ônibus coletivos e passo a observar a correria urbana. No começo, fazia aquilo com a intenção de reconhecer as ruas e avenidas pelos detalhes da arquiteturas de prédios e casas. Hoje me perco nas cenas e pessoas. Mergulho na imaginação literária que tenho, e, algumas vezes, percebo-me imerso nas histórias. Por vezes sou eu ali e acolá. Sou tantos por aí, a correr, a espera do próximo ônibus, a sorrir pelas ruas sentindo-me um ser livre de uma idéia de liberdade criada por mim. Sou eu, passarinho vo.ando. Sou poeta-fotógrafo responsável por imortalizar histórias em fotos e atribuir a elas, lembranças. Sejam cheiros, fotografias ou músicas, as lembranças são como a pele vestindo o esqueleto da vida. Compondo, dessa forma, os diferentes lares.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O ex-morador

... e eu digo adeus a todos os que são de adeus.” 
Encontrei esta frase na parede do corredor da casa que eu acabei de comprar. O ex-morador tinha manias estranhas, diziam os vizinhos. Uma delas era escrever nas paredes quando os pensamentos e poesias não conseguiam ficar no papel. Fora isso, encontrei um buraco tão profundo na parede de um dos quartos que dava para ver os tijolos. Ao redor do buraco havia a seguinte frase: “arte contemporânea”; e uma seta indicando para o centro daquela circunferência. Tudo soava marcas e registros daquele ser que por ali morou. 
Nas janelas havia fotos de janelas de outros lugares. Nas portas, fotos de cenas de filmes, artistas conceituados e fotos de fotógrafos famosos tirados de catálogos de exposições. E além de tudo, o ex-morador era um colecionador de cartões postais. Existia um teto todo cheio deles.
Quando entrei no banheiro – que digamos de passagem, é um dos banheiros maiores que já vi – no espelho retangular que tinha na parede existia um adesivo escrito: “Lembre-se de cuidar de você”.
Tudo por ali cheirava lembranças e mais lembranças. Aquilo era como um grande álbum de fotografias. Naquele espaço, a imortalidade existia.
E por incrível que pareça, tive saudade daquele ser que até então não conhecia. Quis que ele fizesse parte fisicamente da casa e diretamente da minha vida (porque indiretamente ele já fazia).
De tudo que se foi e de tudo que ficou só restou à saudade daquele ex-morador que um dia deixou escrito uma poesia de Mário Quintana intitulada “Sobre levar a infância a sério”.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sobre reconhecer a utilidade de suas asas

 Julho de 2010, Jequié, Bahia.

E a água tocava no seu corpo de forma tão intensa que ele em algum instante que olhou para cima – logo quando coincidentemente estava em baixo do poste de luz elétrica – percebeu-se dentro de uma fotografia em constante movimento como se estivesse em cenas de filmes nacionais. A chuva mudara rapidamente o fluxo - ainda mais contra aquela luz amarelada do poste - deixando o ambiente com uma sensação mista de incômodo e familiaridade.
Ali, depois de fazer toda uma “viagem” de táxi numa terça-feira de agosto, dia em que ele se sentiu penetrado pela certeza de mais uma construção. Aquela certeza tão almejada por qualquer jovem-adulto: o fato de poder – AGORA - ter uma casa para chamar de sua.
A casa que poderia ser chamada de sua, e que, além disso, ele pudesse se reconhecer não só em metade de um quarto, mais em um quarto inteiro, uma cozinha, uma sala, banheiro e lavanderia.
As paredes que separam e demarcam espaços seriam agora espelhos.
As coisas agora eram feitas dele. Essencialmente.
Agora ele se sentiu verdadeiro para compreender a dimensão dessa conquista. O grau da mudança de postura e responsabilidade que isso acarreta.
Hoje, ele se sente realmente preparado para escolher ser responsável por isso, não somente levado a ter responsabilidades que lhe agridem e tragam sofrimento.
Não que ele não curta o sofrimento (acreditem: ele aprendeu a gostar do sofrimento). Só que agora o mundo conspira e tudo é realmente uno. 
Ele percebeu que além de sonhador, ele agora é fruto de uma colheita que gerou sonhos vermelhos, deliciosamente saborosos para saciar sua fome do significado da palavra caseiro.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Auto-retrato, luzes de Jequié, dupla exposição.

Ando, atualmente, em pedaços da minha mais fina estampa. Esta que demorei anos para aprender a enxergá-la com cores. Cores vivas e das mais variadas. Cores de Almodóvar.

Sigo em terra terrestre de pegar ônibus lotado e dividir moradia em vários pedaços. Tento, todo santo dia, sobreviver às contas - que tudo indica que serão ainda maiores - e pensar que o sonho na real é sempre assim: cheio de realidade.

Vôo seguro na minha tão enquadrada visão de obturador. A luz que entra é como luz lateral de janela aberta em fim de tarde no sertão. É tudo tão límpido e plástico, quanto ver a arquitetura urbana refletida em restos de água que sobram pela rua.

Vivo imerso em retratos que documentam a minha caminhada de sonhador tão sedento de histórias e poesias. A minha vida pode ser vista e contada como um álbum de fotografias de um homem que em algum momento de sua vida resolveu deixar-se imortalizado na presença espaço-temporal de seus heterônimos que viveram em realidades sobrepostas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010


 
Lembranças são pedaços de sonhos soltos pela rua.